12/06/2019 às 11h16min - Atualizada em 12/06/2019 às 11h16min

Greenpeace cobra proteção da última fronteira de expansão da soja no Brasil

Grupo exige que as grandes empresas alimentícias cumpram seu compromisso de não desmatar para produzir

Boa parte das maiores empresas alimentícias do mundo (Unilever, Nestlé, Danone, Kellogg’s, Walmart...), agrupadas no Consumer Goods Forum (CGF), decidiram em 2010 que até 2020 suas cadeias de produção estariam livres de ingredientes obtidos graças ao desmatamento. A produção de matérias-primas terá destruído nestes 10 anos florestas do tamanho da Espanha, calcula a ONG. A seis meses do fim do prazo, o Greenpeace exige que essas corporações cumpram seu compromisso e considerem o Cerrado um exemplo claro dos resultados da falta de ação, segundo o relatório intitulado Contagem Regressiva para a Extinção, apresentado nesta terça-feira. Mas se mostra pessimista: “Contatamos mais de 60 marcas que assinaram ou são líderes do mercado, mas a maioria não respondeu, e as que o fizeram não podem garantir que não utilizam em suas cadeias de produção ração obtida a partir da soja que vem de zonas desmatadas”, disse Rômulo Batista, pesquisador do Greenpeace, durante uma viagem ao Cerrado organizada pela ONG. E isso que, como salienta, a tecnologia permite que as cadeias de produção sejam mais transparentes.

Batista sustenta que a moratória da soja da Amazônia — a cerca de mil quilômetros do Cerrado — é um bom modelo. Aquele pacto, assinado por grandes empresas com o Governo brasileiro e a sociedade civil, permite que há uma década a indústria não utilize mais a soja de zonas recém-desmatadas na maior floresta tropical do mundo. O Greenpeace salienta que o acordo permitiu um grande aumento do cultivo de soja nessa região sem desmatar novas zonas. O compromisso do Consumer Goods Forum para 2020 é inclusive mais ambicioso, porque abrange o planeta inteiro e prevê que não haja desmatamento na produção de vários produtos, incluindo soja, gado, cacau, lácteos, azeite de palma e papel. Seus membros afirmaram em uma nota divulgada na terça-feira que "eles fizeram progressos substanciais em direção ao fornecimento de fontes 100% sustentáveis", mas acrescentam que "aprenderam que as forças que impulsionam o desmatamento são mais complexas" do que imaginavam em 2010 e que eles estão convencidos de que "o suprimento de matérias-primas de fontes certificadas não é suficiente para eliminar o desmatamento".

Mas o Cerrado não é a Amazônia. É menos exuberante, menos famoso e goza de uma proteção legal muito inferior à dada ao chamado pulmão do mundo. O Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo, acolhendo 5% das plantas e animais, incluindo 4.800 espécies endêmicas. Uma riqueza à qual tradicionalmente se prestou pouca atenção no Brasil, enquanto a agroindústria crescia a ritmo vertiginoso impulsionada pelo boom das matérias-primas e o veloz crescimento econômico da China. Estas terras são férteis porque, a partir da década de 1970, o Brasil enviou engenheiros-agrônomos mundo afora para aprenderam, com os outros e em suas próprias pesquisas, a reduzir a acidez da terra e permitir que a soja germinasse. O Brasil é hoje o maior exportador mundial dessa leguminosa: em 2017, vendeu 25 bilhões de dólares em soja (sendo 90% para a China e 9% para a Europa). Esse produto representa 12% de suas exportações, mas é, junto com a pecuária, o principal motor do desmatamento.

"Quando chegaram jamais imaginamos que nos causariam tantos prejuízos", explicou numa tarde recente Lopes Leite na varanda de sua casa em uma pequena comunidade a seis horas de carro de Barreiras (no interior do Estado da Bahia, na confluência com Maranhão, Tocantins e Piauí), cercada por milhares de quilômetros quadrados de plantações. Estas cidades prosperaram (têm luz, trator, escolas, geladeira ...) e alguns moradores são trabalhadores diaristas em situação precária nos latifúndios, mas, de acordo com o Greenpeace, as melhorias econômicas alardeadas pelo setor agrícola não chegaram até eles.

Numa vista aérea, a sucessão de quadrados de diferentes tamanhos e tons de verde parece um Rothko que se estende até onde a vista alcança. Apenas um pequeno avião amarelo de fumigação, que de cima parece um mosquito, dá uma ideia da magnitude. Aqui e ali surgem pequenas parcelas com vegetação verde escura. São reservas ambientais. Um total de 20% das terras do Cerrado é intocável por lei, na Amazônia, 80%. O desmatamento aqui é maior e mais acelerado do que lá: 8.972 quilômetros quadrados nos últimos 12 meses, segundo o Greenpeace. Quase o tamanho de Chipre, apontam suas medições feitas por satélite.

Para esta ONG, o latifúndio Estrondo, que, com 305 mil hectares, é maior do que Luxemburgo, incorpora o pior da indústria da soja. Suspeita que se apropriou ilegalmente de terras, algumas de suas licenças para desmatar legalmente estão sendo investigadas e é acusado de usar trabalho análogo à escravidão. O Greenpeace afirma que em abril constatou que estavam cultivando 69 hectares embargados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). Todas as tentativas de ouvir a versão do Estrondo foram infrutíferas.
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